SOBRE O 25 DE ABRIL
Ex.Sr Presidente da Assembleia Municipal de Terras de Bouro
Não Sr. Presidente!, não é ridículo celebrar o 25 de Abril neste momento.
É pena que o Sr. Presidente não tenha sido capaz de estar à altura do momento que vivemos e que em vez de uma atitude responsável e pedagógica, tenha sucumbido à mistificação e ao populismo dos falsos argumentos das forças mais retrógradas e reacionárias da sociedade Portuguesa. A CDU e o seu eleito na Assembleia Municipal estão em profundo desacordo com a sua decisão e sobretudo com os argumentos por si utilizados. Senão vejamos:
1-Diz o senhor Presidente : “temos de dar um exemplo de credibilidade para que as Entidades Públicas não entrem em descrédito.” . Presunção e água benta cada um toma a que quer, mas parecenos um bocado abusivo da sua parte achar que a credibilidade do Presidente da República, do Presidente da Assembleia da República e da própria Assembleia da República dependem do senhor e do seu gesto. Ignora o Sr. Presidente, que a Assembleia da República nunca deixou de funcionar? Ou seja, pode funcionar antes e depois do dia 25 de Abril sem problema nenhum... no dia 25 é que não!? Trata-se portanto não de abrir, mas sim fechar a Assembleia da República ao 25 de Abril! Ou seja, o senhor acha que os mesmos Deputados que em número semelhante por três vezes estiveram no plenário da Assembleia da República a aprovar normas e leis que limitam e restringem liberdades (aprovação do estado de emergência) credibilizaram e prestigiaram o seu mandato, mas se no mesmo hemiciclo assinalarem a Liberdade, isso é desprestigiante? Estranha concepção do papel e função dos eleitos do povo e dos órgãos de soberania. Quem assim pensa, tem um problema não com as comemorações mas com o próprio 25 de Abril.
2-Sr. Presidente, se for ao supermercado encontra mais gente que o número de membros da Assembleia Municipal, e bem desde que se mantenham as regras de higiene e distanciamento. Se fosse o caso podia-se colocar e considerar a redução de presenças nesta sessão.
3-Sr. Presidente, com o mesmo e devido respeito por ambas as datas, o 25 de Abril e a Páscoa não são a mesma coisa, não é sério compará-las e nem a Páscoa foi cancelada. O que foi cancelado foi a realização dos compassos e ajuntamentos. No mesmo sentido foram canceladas as comemorações populares do 25 de Abril, na Av. da Liberdade, nos Aliados, na Av. Central em Braga e em todo o País estão canceladas todas as acções de rua, colóquios, debates, espetáculos musicais e outros que habitualmente se realizam no quadro das comemorações do 25 de Abril.
4-Sr. Presidente, e não! A Assembleia Municipal de Terras de Bouro, não é um funeral. Apesar da relação de cordialidade e respeito entre os membros da Assembleia Municipal, não consta que seja habitual grandes manifestações de afecto, de consolo e conforto no ombro amigo que habitualmente se encontra ou se oferece a familiares e amigos nas cerimónias fúnebres, regra geral em casas ou Capelas mortuárias de reduzidas dimensões. Sr. Presidente, por tudo isto não podemos deixar de registar o nosso profundo desacordo com a decisão por si tomada, e em particular pelos argumentos falsos e populistas por si utilizados. Esta Assembleia não só podia como devia ser realizada precisamente tendo em conta o momento que vivemos. Estando previsto para o dia 2 Maio o fim do estado de emergência justificava-se o agendamento de um segundo ponto para que o Sr. Presidente da Câmara pudesse dar uma informação sobre o balanço possível até ao momento e sobretudo como será o pós estado de emergência no nosso Concelho. Que medidas estão a ser consideradas de acompanhamento e apoio à população em geral, ao sector social e ao sector do turismo e hotelaria com a importância e peso que tem na económica do nosso Concelho. Bem como, se à semelhança do que tem sido noticiado em outras autarquias, podem estar em causa a execção de projectos e obras, nomeadamente aquelas que foram recentemente votadas e aprovadas nas grandes opções do plano e orçamento, se sim quais? Assinalar o 25 de Abril nunca foi, nos últimos 45 anos, como não será este ano, uma festa, como se de uma romaria ou um arraial se tratasse. Ao longo dos últimos 45 anos, tal como este ano, assinalar o 25 de Abril é homenagear os que, durante 48 anos, enfrentaram a repressão, as privações, as prisões, as torturas, a morte... é homenagear os que nunca desistiram. É homenagear este povo que resistiu, enfrentou e derrubou a ditadura fascista. Assinalar o 25 de Abril foi e é homenagear os militares que fizeram o golpe, o povo que transformou o golpe em revolução e os trabalhadores que, com a sua luta, foram o motor dos notáveis avanços alcançados.
Assinalar o 25 de Abril é evocar a nossa Constituição, a Constituição da República Portuguesa, a “Constituição de Abril”, com tudo o que ela comporta de progressista, com a força e o valor que tem, mesmo depois de vários ataques e dos anseios de muitos em a subverter. ...mas, assinalar o 25 de Abril é também afirmar que há quem continue a defender e lutar pelos valores de Abril. É reafirmar o amor a este povo e a confiança na sua capacidade transformadora. Assinalar a Revolução de Abril, nestes tempos marcados pelo vírus, é assumir a coragem de enfrentar a hipocrisia daqueles que propagandeiam as teses do todos juntos. É enfrentar e denunciar os ataques aos trabalhadores e à democracia. É denunciar e abrir caminho à superação das injustiças e desigualdades. Assinalar Abril é não deixar que ninguém se esqueça que ao longo de mais de 30 anos muitos daqueles que hoje choram “lágrimas de crocodilo” perante as falhas do SNS foram precisamente aqueles que o tentaram destruir, aqueles que se enchem com o negócio da saúde privada.
Por tudo isto, é perfeitamente compreensível que haja quem não queira assinalar o 25 de Abril. É normal, nunca quiseram. Mas, também havia quem não quisesse uma Revolução. Havia quem não quisesse a nossa Constituição. Havia quem não quisesse a Reforma Agrária. Havia quem não quisesse o SNS. Havia quem não quisesse Nacionalizações... Sim, é verdade que muitas destas conquistas se perderam e outras foram amputadas. Mas o povo que as conquistou também as poderá recuperar, com a sua opção, a sua mobilização, a sua luta e o seu voto.
Por muito que custe a alguns, VAMOS ASSINALAR A REVOLUÇÃO DE ABRIL.
O Eleito da CDU
Alexandre Pereira Terras de Bouro,

